Everson Shark: o tubarão que movimenta o ecossistema cultural de Valparaíso com força e estratégia

1. Origem e Propósito>

Ada Miniane: “Everson, de onde surgiu o seu apelido ‘Shark’ e como ele simboliza ou influencia sua missão como agente cultural em Valparaíso de Goiás?”

Everson Shark: O apelido Shark nasceu em 2002, quando entrei para uma banda de rock. Todos os integrantes usavam nomes artísticos, então precisei criar um pseudônimo. Naquele dia estávamos assistindo ao desenho EEK The Cat, que tinha um personagem muito enérgico e arisco chamado Shark, um cachorro em forma de tubarão. A personalidade daquele cãozinho lembrava um pouco a minha, e assim o nome pegou. De certo modo, fui eu mesmo quem se apelidou (algo incomum), mas simplesmente aconteceu.Quanto ao simbolismo, acredito que o tubarão representa bem minha atuação cultural: é um animal muitas vezes incompreendido e temido, mas que, no fundo, só deseja nadar livre e viver em equilíbrio com o ecossistema. Assim também caminho: firme, resiliente e em busca de harmonia no ambiente cultural de Valparaíso.

2. Visão de Cultura para Valparaíso>

Ada Miniane: “Qual é a sua visão para a cultura em Valparaíso de Goiás nos próximos 5 a 10 anos — e que papel você acredita que a UCP (União Cultural pelas Políticas Públicas) deve ter para tornar essa visão realidade?

Everson Shark: ”Vejo Valparaíso de Goiás, especialmente pela sua localização estratégica, tornando-se uma cidade marcada por grandes eventos anuais de referência, como Motoweek, Porão do Rock e O Maior São João do Cerrado. A UCP está diretamente envolvida nessa construção, alinhando esforços, conectando agentes e preparando terreno para essas realizações grandiosas.As peças do quebra-cabeça estão se encaixando, as sementes plantadas estão germinando e alguns frutos já começam a amadurecer. Vem muita coisa boa por aí! A a UCP está comprometida, de corpo inteiro, com essa transformação. UCP é arte da cabeça aos pés.

3. Desafios e Conquistas>

Ada Miniane: “Quais foram os maiores obstáculos que você enfrentou até agora em sua trajetória como agente cultural e, ao mesmo tempo, quais conquistas você considera mais significativas para a cena cultural local?

Everson Shark: ”Os maiores obstáculos que enfrentei foram a arrogância, o preconceito, a mediocridade e a profunda pobreza intelectual de pessoas que insistem em se colocar como detentores absolutos da cultura local.Minhas conquistas mais significativas incluem fazer recursos chegarem a quem realmente precisava, especialmente a artistas que já haviam perdido a esperança. Também considero uma vitória ver produtores que antes faziam eventos rasos elevarem o nível de suas entregas.Além disso, liderar grandes festivais como Motofest e Festcult e presidir o Conselho Municipal de Cultura por dois mandatos (vindo “do nada”), sob olhares desconfiados e resistência dos “manda-chuvas”, tem um valor enorme para mim.

4. Política e Participação Social>

Ada Miniane: “Como presidente do CMC (Conselho Municipal de Cultura), de que forma você enxerga a participação da comunidade nas decisões culturais, especialmente em processos de acesso às políticas públicas relacionadas a arte que você tem coordenado? Quais mecanismos você considera mais eficazes para engajar artistas e cidadãos?

Everson Shark: “participação da comunidade nas decisões culturais ainda é um desafio. Embora a comunidade artística esteja sempre se movimentando, cada qual ao seu modo, o público geral de Valparaíso , que deveria ser o principal interessado no consumo cultural, ainda não conseguimos atingir plenamente.É um trabalho contínuo de sensibilização, formação de platéia e fortalecimento do senso de pertencimento cultural.

5. Recursos e Financiamento (PNAB)>

Ada Miniane: “A Política Nacional Aldir Blanc tem trazido recursos relevantes para a cultura de Valparaíso. Como você avalia esse impacto até agora, e quais estratégias você defende para que esses recursos sejam usados com máxima efetividade e transparência para fomentar a cultura local?

Everson Shark: ”A PNAB talvez seja o maior programa de fomento à cultura já implementado, mas ainda há pontos a aprimorar. O principal, na minha visão, é a criação de um mecanismo nacional de validação de portfólios, pois em várias comissões percebi que muitos artistas usam ações de outros como comprovação da própria trajetória.Isso não é justo. Quem produz um evento enfrenta desafios gigantes, enquanto alguns artistas, às vezes apenas participantes pontuais, assumem um protagonismo que não lhes pertence. Isso distorce os editais e gera injustiças, inclusive contra os próprios produtores reais do evento.

6. Inclusão e Acessibilidade>

Ada Miniane: “Você tem sido uma voz ativa na promoção de políticas inclusivas. De que forma você enxerga a aprovação de medidas como o ‘Passe Livre Cultural’ para pessoas com deficiência, assim como outros projetos aprovados em prol da cultura local e como isso pode transformar o acesso à cultura em Valparaíso?

Everson Shark: ”Eu acredito no poder da inclusão como transformação de vidas. Poder levar um filho deficiente para assistir um espetáculo deve ser algo muito gratificante pra um pai ou mãe. Contudo, apesar dos esforços de todas as esferas governamentais para promover a inclusão, acredito que estamos longe de transformar isto em realidade. Um exemplo muito prático para entender isso é o uso do tradutor em libras que vem sendo utilizado amplamente nas atividades culturais como comprovação de uso de medias de acessibilidade mas ninguém avisa para os surdos que aquele evento terá o tal tradutor, resultado: coloca-se um tradutor em libras pra traduzir pra ninguém. Temos muito que refletir sobre acessibilidade e inclusão. É uma pauta muito ampla pra se tratar em poucos de minutos de entrevista então prefiro deixar este debate pra outro momento.

7. Eventos Culturais Locais>

Ada Miniane: “Olhar para os eventos que se consolidam em Valparaíso, como o Moto Fest: qual é a importância desses eventos para a identidade cultural da cidade e como a Secretaria de Cultura pode fortalecer sua relevância e estrutura para que sejam mais inclusivos e frequentes?

Everson Shark: ”Alguns eventos tradicionais de Valparaíso já deveriam ter alcançado proporções muito maiores. Apesar de terem várias edições, ainda são realizados de forma aquém de seu potencial. Acredito que, num futuro próximo, conseguiremos elevar sua qualidade, tornando-os mais poderosos, estruturados e significativos.A Secretaria de Cultura tem se empenhado, mas ainda faltam parceiros que enxerguem esses eventos como produtos culturais de alto impacto, capazes de atrair público de outros estados, movimentar a economia e promover artistas locais lado a lado com grandes atrações.A Secretaria de Cultura tem se empenhado, mas ainda faltam parceiros que enxerguem esses eventos como produtos culturais de alto impacto, capazes de atrair público de outros estados, movimentar a economia e promover artistas locais lado a lado com grandes atrações.

8. Espaços Culturais>

Ada Miniane: “Como você avalia o papel dos Pontos de Cultura no fortalecimento da arte e da cultura na periferia de Valparaíso? Quais são os desafios para manter esses espaços e torná-los sustentáveis a longo prazo?

Everson Shark: ”Os Pontos de Cultura ainda são, para mim, um “museu de grandes novidades”: uma política antiga, presente no Plano Nacional de Cultura há muitos anos, mas que só agora está chegando a Valparaíso de Goiás. Por muito tempo, quem dominava esse conhecimento não o compartilhava.Hoje estamos aprendendo, consolidando e buscando recursos para fortalecer esses espaços. Estou otimista com o avanço do PNCV – Política Nacional Cultura Viva na cidade e sigo aprendendo todos os dias.

9. Liderança e Inspiração>

Ada Miniane: “Quem são as suas maiores influências culturais, artísticas ou políticas e como essas referências moldaram o seu jeito de liderar e agir em favor da política cultural municipal?

Everson Shark: ”É complicado falar sobre este tema pois minhas maiores influências culturais, artísticas e políticas são justamente os antagonistas (vilões), aqueles que mostraram pelo mau exemplo o que eu não deveria fazer ou reproduzir.Enquanto alguns optavam por concentrar recursos em pequenos grupos que de forma carinhosa apelidamos como: “os meia dúzia”, eu escolhi pulverizar conhecimento, democratizar oportunidades e abrir portas.Acredito que meu legado será justamente esse: o cara que tirou muita gente da invisibilidade e quebrou uma corrente de poucos para libertar aqueles que não sabiam como acessar as políticas culturais.

10. Legado e Futuro>

Ada Miniane: “Quando você olha para trás em sua trajetória como agente cultural, o que você mais espera que as futuras gerações em Valparaíso lembrem de você? E quais são os projetos ou sonhos que você ainda quer realizar para deixar um legado duradouro?

Everson Shark: ”Acho que me antecipei respondendo esta pergunta na anterior ( rsrsrsrs) mas espero que as futuras gerações lembrem de mim como alguém que trabalhou para abrir caminhos, descentralizar oportunidades e fortalecer quem nunca tinha sido ouvido.Ainda tenho muitos sonhos: consolidar grandes festivais, estruturar uma política cultural contínua e deixar bases sólidas para que Valparaíso de Goiás seja referência em inclusão, inovação e potência cultural.

https://www.instagram.com/eversonshark?igsh=MTBjbzJ0bmo1Ym1iZQ==

https://www.instagram.com/ucp_cultura?igsh=dWl0MzF2am9lcGNm

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Somos uma organização da sociedade civil e um coletivo de artistas e fazedores de cultura, unidos para colaborar, debater e construir políticas públicas que fortaleçam o setor cultural.

˜UCP Arte da cabeça aos pés.˜